A língua, a respiração e a apneia do sono

A língua, a respiração e a apneia do sono

A necessidade de interiorização de estruturas nobres com objetivo de preservá-las foi a escolha da evolução em milhões de anos.

Desta forma, resguardados em estruturas ósseas fechadas (sistema nervoso central); abertas, móveis (pulmões e coração) ou musculares (abdome), órgãos nobres desta forma ficaram protegidos, mas alguns deles, os que necessitavam de intenso contato com o meio externo (sistema nervoso central, pulmões e sistema digestório), precisaram de prolongamentos periféricos que os interconectassem a este meio. Assim, receptores periféricos especializados se desenvolveram para levar, através de nervos, diferentes informações do ambiente para o sistema nervoso central. Já os sistemas respiratório e digestório têm uma via comum, que é a faringe, estrutura que analisaremos a seguir.

Para que o ar insufle os pulmões, se faz necessário contrações de músculos, que geram pressão negativa e expansibilidade da caixa torácica. Esta condição aumenta a pressão intraluminal em toda a via aérea. O nariz não sofre, uma vez que é protegido por ter osso e cartilagem. A via aérea inferior também não, por ter cartilagem. O problema é a faringe, que não possui osso ou cartilagem e ainda possui “penduricalhos” (úvula, palato mole, amígdalas e língua), que favorecem seu colabamento. Por fazer parte do sistema digestório, precisa contrair para auxiliar a progressão do bolo alimentar (musculatura constritora) e por fazer parte do sistema ventilatório, precisa manter-se aberta para a passagem do ar. A permeabilidade da faringe decorre da ativação de músculos dilatadores que a ela se inserem e fazem parte de sua anatomia. A ativação destes músculos é controlada por complexa rede neural que deve ativá-los cerca de 60 milissegundos antes da ativação dos músculos que promovem a inspiração.

Dos músculos que dilatam a faringe, os mais importantes são aqueles que compõem a língua. Esta, de uma maneira simplificada, é composta por músculos intrínsecos e extrínsecos. O músculo genioglosso forma a parede anterior da orofaringe e é o músculo extrínseco que muito interessa ao médico do sono, por ser o maior dilatador da faringe. A faringe tem múltiplos sensores (estiramento, fluxo, pH, pressão negativa) que informam ao SNC sua patência (condição de abertura). Esta patência não é fixa e é maior com a pessoa acordada. Com o sono, ocorre relaxamento de toda a musculatura estriada esquelética e a língua tende a deslocar-se para trás, notadamente quando se está deitado em decúbito dorsal (barriga para cima). Com o relaxamento, ocorre obstrução parcial da faringe, ocasionando o ronco e as paradas respiratórias durante o sono (apneias).

Quaisquer condições que estreitem a faringe (amígdalas palatinas volumosas, amígdalas linguais volumosas, aumento de adenoides, aumento do volume intrínseco da língua, esqueleto facial hipodesenvolvido, obesidade) levam a aumento do trabalho da musculatura dilatadora da faringe. Só quando esta musculatura entra em falência é que os sintomas da apneia obstrutiva do sono aparecerão.

Nem todo paciente com obesidade padece de apneia do sono. Por outro lado, pacientes magros, com alteração do crescimento crânio facial, apresentam línguas que nem sempre cabem na boca, sendo necessário esforço acentuado para manter a faringe patente durante o sono. Esta sobrecarga de trabalho, dos músculos dilatadores da faringe, ocasiona o que se denomina de neuromiopatia de esforço, porque além da lesão de músculos, os nervos sensitivos e motores também podem ser danificados.

Em todo paciente com distúrbios ventilatórios do sono, o médico deve se ater ao exame minucioso da língua, assim como do arcabouço ósseo que a contém, porque muitas vezes o tratamento da enfermidade deve ser direcionado a estas estruturas.

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Matéria Por

Dr. Nassib Kassis Filho

Otorrinolaringologia

CRM/SP 69.271 RQE 59989 | São José do Rio Preto

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